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“Eu levaria o Neymar”, diz Sebastião Lazaroni sobre convocação para a Copa

Em entrevista exclusiva ao Conexão Fluminense, o ex-treinador da Seleção Brasileira falou sobre passado e presente do nosso futebol

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22 de abril de 2026
“Eu levaria o Neymar”, diz Sebastião Lazaroni sobre convocação para a Copa
O ex-técnico Sebastião Lazaroni. Crédito: Vanessa Ataliba/Museu da Pelada

Por Marcos Vinicius Cabral

Aos 75 anos, Sebastião Lazaroni mantém opiniões firmes sobre o futebol brasileiro — e não foge de temas atuais. Em entrevista exclusiva ao Conexão Fluminense, o ex-treinador da Seleção Brasileira afirmou que convocaria Neymar para a próxima Copa do Mundo, destacando a importância de um jogador com características de criação no elenco.

“Falta à seleção aquele camisa 10 que faz a jogada e dá para o companheiro fazer o gol. O Neymar tem totais condições. Eu levaria”, afirmou.

Do apartamento onde vive, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, Lazaroni revisitou sua trajetória no futebol — desde a infância até o comando da Seleção — e fez críticas ao modelo atual de formação de atletas no país.

Nascido em Muriaé, Minas Gerais, Lazaroni carregava desde cedo um sonho incomum: voar. No futebol, encontrou na posição de goleiro a forma mais próxima de transformar esse desejo em realidade, traduzindo a fantasia em movimento dentro de campo.

Ao longo de sua carreira, construiu uma trajetória marcada por conquistas e por uma identidade tática forte. Ficou conhecido pelo uso do sistema com líbero na Seleção Brasileira e pelo chamado “lazaronês”, termo criado pela imprensa para definir seu estilo de comunicação técnico e, por vezes, rebuscado.

Campeão carioca pelo Flamengo em 1986 e pelo Vasco em 1987, o treinador acabou participando da formação de uma geração com nomes como Mazinho, Geovani, Bismarck e Romário. Já como treinador da Seleção Brasileira, conquistou a Copa América de 1989 e comandou o Brasil na Copa do Mundo de 1990.

Na entrevista, Lazaroni relembra o início no futebol, comenta mudanças no esporte e analisa o cenário atual da base no Brasil.

ENTREVISTA

Como foi o seu início no futebol?
Meu início no futebol veio da minha paixão pelo esporte. Comecei jogando na Rua Professor Oliveira de Menezes, no bairro do Rocha, Zona Norte do Rio de Janeiro, ainda na época do primário. Era um tempo em que nem sequer existia paralelepípedo na rua. O gol era improvisado: de um lado, um poste com uma pedra e, do outro, duas pedras. Foi ali que tudo começou. Eu jogava com muita vontade, mas também me machucava bastante, principalmente no dedão do pé, quando chutava errado e acertava o chão em vez da bola. Mesmo assim, foi nessa época que nasceu o prazer de jogar futebol. Depois disso, fui para o futebol de salão. Comecei no Garnier e, em seguida, passei pelo Magnatas. Mais tarde, precisei escolher entre o futebol e os estudos e optei por seguir na educação física. No fim, tudo começou na rua — foi ali que nasceu meu amor pelo futebol.

Qual era a posição em que o senhor começou a jogar?
Apesar de ser uma posição ingrata e, como dizem, “onde o goleiro pisa nem nasce grama”, comecei como goleiro. Não tive uma inspiração específica, mas o que mais me fascinava era ver que, dentro de campo, o goleiro parecia o único jogador que “voava” ao fazer defesas incríveis, como as pontes.

Foi aprovado em algum clube como goleiro?
Sim. Fiz um teste no São Cristóvão, na categoria infanto-juvenil, junto com colegas do Colégio D. Pedro II, e fui o único aprovado. Na época, era possível conciliar os estudos com o futebol, já que os treinos eram na Figueira de Melo, bem perto do colégio. Depois, surgiu a oportunidade de jogar futebol de salão no Magnatas, na Rua General Belford, e acabei optando por esse caminho.

O futebol “raiz”, comum na sua época, sempre foi a essência do Brasil pentacampeão. O senhor acha que a elitização mudou esse cenário?
Sem dúvida. O futebol de rua sempre foi fundamental na formação do jogador brasileiro. Era ali que se desenvolviam criatividade, improviso e personalidade. Com a elitização e a falta desses espaços, o futebol acabou perdendo parte dessa essência.

Por que se revelam poucos jogadores da base nos clubes?
A responsabilidade, na minha visão, é dos dirigentes. Quando o regulamento do Campeonato Brasileiro permite a inscrição de vários jogadores estrangeiros, isso prejudica diretamente os jovens da base. Muitas portas acabam sendo fechadas. Além disso, muitos dirigentes priorizam o lado econômico e comercial, deixando de lado a essência do clube, que é a formação de atletas. Outro fator importante é o crescimento das cidades. Muitos campos de pelada desapareceram com o avanço imobiliário. Soma-se a isso a mudança de comportamento das crianças: antes, o sonho era ganhar uma bola; hoje, muitas querem um celular. Isso impacta diretamente na formação de novos jogadores.

“O futebol de rua sempre foi fundamental na formação do jogador brasileiro. Era ali que se desenvolviam criatividade, improviso e personalidade”

O senhor acha que o Neymar deve ser convocado para a Copa do Mundo?
O Neymar é, sem dúvida, um grande jogador. Qualidade com a bola ele sempre teve. No entanto, acredito que algumas correções precisam ser feitas, principalmente em relação às atitudes dentro e fora de campo — e não apenas no discurso. Como disse Renê Simões, em 2010, “estão criando um monstro”. É uma frase forte, mas que traz uma reflexão importante. Ainda assim, o talento dele nunca esteve em discussão.

O senhor viu de perto o Leandro e lançou o Ronaldinho Gaúcho. Faltam jogadores como eles hoje?
Bem servidos, não estamos. Hoje temos grandes jogadores brasileiros atuando na Europa, mas ainda é pouco para um mercado tão exigente como o nosso. Antigamente, havia uma variedade muito maior de craques. Mesmo assim, ainda existem bons jogadores. O problema é que é preciso peneirar muito para encontrar a “pedra bruta” que pode se transformar em uma grande joia. Por isso, reforço: é fundamental investir na base. É ali que o jovem jogador encontra condições para sonhar e se desenvolver.

O que o senhor tem a dizer da Lei Pelé?
A Lei Pelé tem muitas coisas positivas, mas também tem uma negativa: ela tirou do clube, que é quem banca o jogador com alojamento, comida, treinador e treinos, a responsabilidade sobre o atleta. A lei não pode ser exclusivamente para beneficiar apenas o atleta, que é o meio do processo entre o investidor e o futuro comprador. Antes de se tornar atleta, há um investimento que o clube faz nele.

Qual grande jogador o senhor lançou?
Bismarck. Tive a oportunidade de lançá-lo. Um grande menino que se transformou em um excepcional jogador e um grande homem.

Algum arrependimento nesses anos todos de futebol?
Não ter levado o Donato para a Seleção Brasileira. Ele era um jogador extraordinário. Levei Acácio, Mazinho, Bismarck, Tita e Romário, mas o Donato é um arrependimento que carrego até hoje.

Flamengo e Vasco fizeram parte da sua vida de forma intensa e em pouco tempo. Demitido de um e campeão no outro. Como foi isso?
Fui demitido do Flamengo e, ao tomarem conhecimento disso, Eurico Miranda e Paulo Angioni me convidaram para um almoço na Barra da Tijuca. Ali acertamos a minha contratação. Foram cerca de 25 dias, tudo muito rápido. Nesse encontro, nem quis saber de salário, tempo de contrato ou condições de trabalho. Quis mostrar a minha capacidade como profissional e provar que os dirigentes rubro-negros estavam errados.

Por falar em Paulo Angioni, como foi trabalhar com um supervisor dessa magnitude?
Paulo Angioni é uma pessoa especial. Foi ele quem me procurou, ao lado do Eurico Miranda, para me levar para o Vasco. Paulo é um supervisor diferenciado em tudo o que se vê até hoje no futebol. Foi ele quem introduziu a psicologia nos clubes, primeiro em São Januário e depois nos clubes em que ele esteve trabalhando. E isso, por mais simples que seja, tem uma importância surreal na vida do jogador e no dia a dia do clube, porque havia uma rejeição muito grande em tocar no assunto nos clubes de futebol da época. Sem contar que o Paulo Angioni é o homem do futebol de salão e com um temperamento ímpar: dócil, meigo, humano e sempre ao lado do jogador. Paulo Angioni tem algo especial em ligar com o jogador na franqueza, na lealdade, na relação humana. Sem falar que ele foi uma pessoa que me ajudou muito no Vasco, me ajudou muito na seleção brasileira e eu tive a oportunidade de aumentar o laço profissional com ele por causa das nossas famílias que sempre estiveram juntas em datas especiais como aniversários e fim de ano. Ele diz que “o futebol é uma grande mentira” como expressão, apesar de forte, a fim de mostrar que esse esporte, apaixonante por sinal, vai muito além do que a gente pensa. Eu já gosto de dizer que é muito além do futebol. É uma vida.

E a água batizada que o Branco bebeu?
Achei aquilo estranho. Tanto que no intervalo do jogo, falei com o médico para examinar o jogador. Ele examinou e disse que estava tudo bem. Não fiquei convencido e falei com o Branco para me avisar se sentisse algo anormal durante o segundo tempo. Como ele prosseguiu jogando, tudo bem. Mas que achei estranho, achei. A dúvida permanece no ar: a tal água batizada, será que foi só contra o Brasil?

Sebastião Lazaroni sendo o técnico da seleção brasileira convocaria o Neymar?
Olha, eu levei cinco zagueiros e cinco atacantes para a Copa do Mundo da Itália. Serão 26 convocados, e acho que o Neymar merece ir. Falta à seleção brasileira aquele camisa 10 que faz a jogada e dá para o companheiro fazer o gol — o tradicional “faz e me consagra”. Vi uma boa partida do Neymar neste Brasileiro contra o Atlético-MG. Acho que ele tem totais condições de ir e, como treinador da seleção, eu levaria.


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