Conexão Empresarial

Copa do Mundo e Varejo: como transformar paixão em oportunidade de negócios

Por Juedir Teixeira*

A Copa do Mundo sempre foi muito mais do que um evento esportivo. Ela representa um fenômeno econômico, social e emocional capaz de alterar o comportamento de consumo de milhões de pessoas em um curto espaço de tempo. No Brasil, país reconhecido mundialmente pela paixão pelo futebol, o impacto da Copa no varejo é ainda mais significativo.

Ao longo da minha trajetória no varejo, acompanhando operações, indicadores de consumo e tendências globais, percebo que grandes eventos como a Copa do Mundo criam uma espécie de “janela emocional de consumo”. O consumidor muda hábitos, aumenta o consumo em categorias específicas e passa a buscar experiências coletivas ligadas ao entretenimento, alimentação, tecnologia e conveniência. A Copa do Mundo de 2022, realizada no Catar, deixou isso muito claro.

Diversos estudos apontaram que o evento movimentou bilhões de reais na economia brasileira e gerou forte impacto em setores estratégicos do varejo. Levantamentos divulgados no mercado mostraram crescimento expressivo em categorias como televisores, vestuário esportivo, alimentos, bebidas e itens voltados para confraternizações em casa. Dados divulgados em análises de mercado indicaram que o varejo brasileiro apresentou crescimento entre 7% e 8% superior ao registrado na Copa de 2018. 

O comportamento do consumidor também mudou significativamente durante o torneio. Estudos apontaram que cerca de 66% das pessoas assistiram aos jogos em casa com familiares e amigos, enquanto milhões de brasileiros passaram a consumir mais alimentos prontos, snacks, bebidas e produtos ligados ao churrasco e entretenimento doméstico. 

Os supermercados talvez tenham sido um dos maiores beneficiados. Dados recentes, baseados no comportamento observado durante a Copa de 2022, mostram que determinados produtos apresentaram crescimento extremamente relevante nos dias de jogos da seleção brasileira. Alguns exemplos chamam atenção:

  • churrasqueiras: crescimento médio de 227%;
  • pipoca para micro-ondas: alta de 120%;
  • air fryer: crescimento de 112%;
  • amendoim salgado: aumento de 86%;
  • espetinhos bovinos: crescimento de 67%.

Além disso, o ticket médio do varejo alimentar também apresentou crescimento expressivo em dias de jogos importantes, reforçando como eventos esportivos impactam diretamente o consumo por impulso e o consumo emocional. Mas existe um ponto estratégico que muitos empresários ainda não perceberam completamente:

A Copa do Mundo não aumenta vendas apenas para quem vende produtos ligados ao futebol. Ela aumenta vendas para empresas que conseguem criar conexão emocional, experiência e conveniência no momento certo. E isso vale para praticamente todos os segmentos do varejo.

O consumidor entra em “modo Copa”. Ele reúne amigos, antecipa compras, troca equipamentos, consome mais alimentos, busca entretenimento e passa a viver experiências coletivas. O varejo que entende esse comportamento consegue ampliar faturamento, aumentar fluxo de clientes e melhorar margens.

Por outro lado, empresas que não se preparam podem enfrentar dificuldades operacionais, ruptura de estoque e perda de oportunidade comercial.

Na minha visão, a Copa de 2026 tende a gerar um impacto ainda maior no varejo mundial e brasileiro. A competição terá um formato ampliado, mais seleções participantes e maior volume de exposição global. As projeções do mercado já apontam expectativa de aumento relevante no ticket médio e nas vendas em diversos segmentos. 

Diante desse cenário, acredito que existem cinco ações estratégicas fundamentais para o varejo aproveitar melhor as oportunidades da Copa do Mundo:

  1. Criar campanhas temáticas e emocionais

O varejo precisa entender que Copa do Mundo é emoção. As campanhas precisam gerar pertencimento, engajamento e experiência. Não basta colocar uma bola de futebol na vitrine. É necessário construir comunicação conectada ao momento vivido pelo consumidor. Promoções temáticas, ambientação de loja, conteúdos digitais e ações nas redes sociais ajudam a aumentar conexão com o público.

  1. Trabalhar estoque e abastecimento com inteligência

Muitos varejistas perdem vendas durante grandes eventos por falhas básicas de gestão. Produtos ligados a consumo coletivo precisam ter planejamento antecipado de compras, acompanhamento diário de giro e reposição rápida. Categorias como bebidas, carnes, snacks, televisores, itens de decoração e vestuário costumam apresentar forte aceleração. Gestão de estoque continua sendo um dos maiores diferenciais competitivos do varejo.

  1. Aproveitar o crescimento do consumo em casa

A Copa fortalece o chamado “varejo da experiência doméstica”. As pessoas recebem amigos, fazem confraternizações e transformam a casa em ambiente de entretenimento. Isso aumenta oportunidades para supermercados, atacarejos, lojas de utilidades domésticas, eletroeletrônicos, móveis, decoração e food service. O varejista precisa montar ofertas integradas voltadas para esse momento.

  1. Integrar físico e digital

O consumidor da Copa pesquisa online, compra no digital e retira na loja física. Ou faz o contrário. Por isso, operações omnichannel ganham enorme relevância durante grandes eventos. Empresas que conseguem integrar estoque, entrega rápida, marketplace, redes sociais e loja física ampliam significativamente sua capacidade de conversão. A jornada de compra deixou de ser linear.

  1. Transformar fluxo em relacionamento

Grandes eventos aumentam o fluxo de clientes. Mas o verdadeiro desafio não é apenas vender durante a Copa. É transformar compradores ocasionais em clientes recorrentes. Captura de dados, programas de relacionamento, CRM e campanhas pós-evento são fundamentais para prolongar o impacto positivo nas vendas. No final, a Copa do Mundo nos ensina algo muito importante sobre o varejo moderno:

O consumidor compra produtos. Mas decide emocionalmente. E os grandes eventos esportivos potencializam exatamente esse comportamento. O varejo que conseguir unir gestão eficiente, inteligência comercial, experiência do cliente e velocidade operacional terá enorme oportunidade de crescimento durante a Copa do Mundo de 2026. Porque no varejo, assim como no futebol, os melhores resultados normalmente acontecem para quem se prepara antes do jogo.


Juedir Teixeira é PhD, fundador e CEO da JTB Consultoria

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