Esportes

Dia dos Povos Indígenas tem goleada histórica em Maricá

Por Marcos Vinicius Cabral

No domingo, 19 de abril, o futebol ultrapassou os limites das quatro linhas e ganhou um significado ainda mais profundo. Em Maricá, no Leste Fluminense, a equipe do Esporte Clube Originários, formada por indígenas, entrou em campo para fazer história. E goleou. 7 a 0 sobre o 9 de Abril, equipe amadora local.

A parceria entre o Esporte Clubes Originários e o Ceres Futebol Clube rendeu a oportunidade da equipe disputar a Série C do Campeonato Carioca, que começa em maio. Com o resultado, a equipe indígena mostrou que está pronto para fazer ainda mais história na Série C.

Com a bola rolando, o atacante Wendy escreveu seu nome na história ao se tornar o primeiro jogador integrante de uma tribo indígena a marcar um gol no futebol carioca — um feito que vai além das estatísticas e se transforma em símbolo de identidade, orgulho e resistência.

Pertencente à etnia Xakriabá, Wendy marcou um dos gols na vitória por 7 a 0 no jogo disputado no Estádio João Saldanha, diante de cerca de 800 torcedores. A goleada foi construída com gols de Thailan (2), Wendy, Jefter, Guilherme Kamayurá, Carlos Guajajara e Renato Xakriabá.

Mais do que o placar elástico, o momento representa a afirmação de histórias que por muito tempo foram invisibilizadas no esporte e que agora ganham protagonismo.

Sete gols, um recado: o Originários está pronto

A partida teve papel importante na preparação da equipe para a disputa da Série C do Campeonato Carioca. Segundo o técnico Huberlan Silva, o confronto serviu como um teste fundamental para o elenco.

“Esse jogo foi importante para dar ritmo aos jogadores que estão se preparando para o Carioca Série C. Serviu para observar posturas, condicionamento e ajustar detalhes para a nossa principal competição do ano”, destacou o treinador Huberlan Silva.

O centroavante Wendy fez história no campeonato carioca

Em entrevista exclusiva ao CONEXÃO FLUMINENSE, o atacante Wendy compartilhou emoções, memórias e sonhos que acompanham essa conquista.

Como surgiu a paixão pelo futebol?

Desde pequeno. Eu jogava descalço na rua e sempre tive meu pai como referência. Foi vendo ele jogar que nasceu esse sonho que hoje começa a se tornar realidade.

Qual é o seu ídolo no futebol?

Meu maior ídolo é Deus. No futebol, me inspiro muito no Cristiano Ronaldo, pela dedicação e pela forma como ele vive a profissão.

Como você chegou ao Esporte Clube Originários?

Tudo começou em um evento em Belo Horizonte, o Torneio Gol pelo Clima, que reuniu várias aldeias indígenas de Minas Gerais. Eu representei a etnia Xakriabá e fui um dos destaques. O Léo Jardim estava lá, me observou, falou com o Anderson, do Originários, e daí surgiu o convite.

O que passou pela sua cabeça na hora do gol?

É um frio na barriga difícil de explicar. Quando a bola sai do pé e faz a curva, parece que o tempo para. É uma mistura de expectativa com uma explosão de energia. Mas também é o meu trabalho — estou ali para fazer gols e seguir meus objetivos.

Você imaginava alcançar um feito como esse?

Não. Sinceramente, nunca imaginei que um gol teria tanta repercussão. Não pensei que poderia entrar para a história do clube dessa forma.

O que esse gol representa para os povos indígenas?

Mostra que nós existimos, resistimos e pertencemos a esse espaço. Muitas vezes tentam nos colocar só no passado, mas estamos no presente, ocupando nosso lugar com a nossa identidade. Um time totalmente indígena fazendo história é algo muito forte.

Quais são seus objetivos daqui para frente?

Quero ajudar o Originários a fazer uma grande campanha. O objetivo é coletivo: fazer bons jogos e buscar o acesso à Série B2 do Campeonato Carioca.

Como está a preparação do time para a Série C de 2026?

Estamos muito focados, treinando forte todos os dias. A ideia é evoluir sempre e chegar bem preparados para lutar pelos nossos objetivos na competição.

Vasco também homenageia povos indígenas

Em celebração ao Dia dos Povos Indígenas, o Vasco da Gama realizou, no Estádio São Januário, uma ação simbólica ao receber representantes da Seleção Indígena de Futebol do Brasil e das Américas (Sifba).

Antes do início da partida, a jovem indígena Thalia Para Mirim Oliveira, de 12 anos, da etnia Guarani Mbya, entrou em campo ao lado dos jogadores, protagonizando um momento de forte representatividade. Enquanto isso, integrantes da Sifba acompanharam o confronto das tribunas de honra, ao lado de dirigentes do clube, reforçando o caráter institucional do encontro.

No intervalo do jogo, a aproximação entre as entidades ganhou mais um gesto simbólico com a troca de camisas entre o presidente da Assembleia Geral do Vasco, Alan Belaciano, e o presidente da Sifba, Matheus Terena, evidenciando o diálogo e a parceria em construção.

A iniciativa destacou o compromisso do clube carioca com pautas sociais e a valorização dos povos originários. Para a Sifba, o momento também representa mais um passo na consolidação de seu projeto, que busca ampliar a visibilidade indígena no futebol, fortalecer parcerias com clubes e avançar na criação de equipes em todo o país, além de futuramente estruturar uma federação própria.


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