Opinião

Que país é esse? Que família é essa?

*Por Alberto Ahmed

Se o Brasil resolvesse transformar a política nacional numa série de televisão, talvez nem os roteiristas de humor mais exagerados tivessem coragem de escrever algo parecido com o que envolve a família Jair Bolsonaro nos últimos anos. É escândalo pra lá, investigação pra cá, briga em família, tornozeleira rompida, filho nos Estados Unidos fazendo diplomacia paralela e um filme milionário surgindo no meio do caminho como se tudo isso fosse normal. A sensação é de que o brasileiro acorda todo dia perguntando: “Qual capítulo vai passar hoje?”

As novas revelações envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro parecem roteiro de tragicomédia política. Áudios, mensagens, cobranças financeiras, tratamento de “irmão” e um suposto financiamento milionário para o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente.

O problema é que o “azarão” virou um cavalo atolado no lamaçal das suspeitas. Enquanto o banco afundava em denúncias e investigações, as conversas sobre dinheiro continuavam firmes e fortes. O filme parecia prioridade absoluta. Faltava parcela, faltava depósito, faltava explicação convincente. E o brasileiro, claro, ficou tentando entender como um projeto cinematográfico consegue movimentar cifras tão gigantescas enquanto milhões de famílias vivem contando moeda no supermercado.

E não para por aí. A mesma engrenagem financeira usada para os repasses ao projeto cinematográfico aparece agora cercada de suspeitas gravíssimas envolvendo movimentações investigadas por ligação com o crime organizado.

O país acompanha perplexo mais um capítulo onde política, negócios obscuros e interesses privados parecem dançar agarradinhos. Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro segue nos Estados Unidos exercendo uma espécie de “embaixada paralela da família”, como se fosse chanceler informal de um governo que acabou faz tempo.

Dá entrevista, articula encontros, pressiona autoridades estrangeiras e alimenta teorias para a militância digital. Tudo isso enquanto o Brasil tenta entender quem exatamente ele representa além do próprio sobrenome. Dentro de casa, o clima também não lembra propaganda de margarina. As notícias sobre desentendimentos entre Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente mostram que a chamada “família tradicional” anda mais parecida com reunião de condomínio em dia de aumento da taxa extra.

E então vem o episódio da tornozeleira rompida. Um ex-presidente envolvido em polêmicas sucessivas, cercado de investigações, protagonizando mais uma cena digna de manchete internacional.

A essa altura, o cidadão comum já não sabe se acompanha noticiário político ou reality show permanente. Difícil não lembrar da velha música de Dudu Nobre eternizada em A Grande Família: “Esta família é muito unida e também muito ouriçada… brigam por qualquer razão”.

No caso dos Bolsonaro, a diferença é que a “pirraça” virou caso de polícia, investigação financeira e crise institucional. O mais grave é que tudo isso acontece enquanto setores da política tentam vender moralidade, patriotismo e defesa da família como slogans eleitorais.

O discurso pode até soar bonito no palanque. Mas a realidade tem sido outra: confusão, suspeita, conflito e escândalo quase em tempo integral. O Brasil merece mais do que esse interminável espetáculo de trapalhadas nacionais. Porque uma coisa é certa: quando a política vira novela, quem paga a conta no último capítulo é sempre o povo.


*Alberto Ahmed é presidente do Jornal Povo na Rua

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