Saúde
Entrevista

“Tratar a obesidade vai além da balança”, afirma doutor Bruno Gomes

Conversamos com o Dr. Bruno Gomes, médico farmacêutico, pós-graduado em Nutrologia e Cardiologia.

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14 de janeiro de 2026
“Tratar a obesidade vai além da balança”, afirma doutor Bruno Gomes
Doutor Bruno Gomes, médico farmacêutico. Crédito: Arquivo Pessoal

Por Marcos Vinicius Cabral

Três em cada quatro brasileiros poderão sofrer, em 2026, com algum problema de saúde relacionado à obesidade ou ao sobrepeso. O alerta é de um levantamento do Programa de Alimentação, Nutrição e Cultura (Palin), da Fiocruz Brasília.

Diante desse cenário preocupante, o CONEXÃO FLUMINENSE ouviu o doutor Bruno Gomes, médico farmacêutico, pós-graduado em Nutrologia e Cardiologia pelo Hospital Albert Einstein. Mestrando em Ciências da Saúde pela Universidade Federal Fluminense (UFF), o especialista atua atualmente nas áreas de medicina preventiva, obesidade e medicina do esporte.

Na entrevista, Bruno Gomes comentou sobre os resultados de tratamentos que têm gerado grande repercussão, abordou o uso das chamadas canetas emagrecedoras e ressaltou que a perda de peso sustentável vai muito além da medicação. Segundo ele, a prática regular de atividades físicas, a qualidade do sono, uma alimentação equilibrada e a hidratação adequada são pilares fundamentais para a saúde e o controle do peso.

O que explica o boom dos medicamentos para emagrecimento nos últimos anos?

O principal fator é a eficácia comprovada desses medicamentos na promoção da perda de peso em um intervalo de tempo considerado razoável. Estudos clínicos de grande impacto ajudaram a consolidar essa percepção. O STEP 1, que avaliou a semaglutida, demonstrou uma redução média de 14,9% em 68 semanas. Já a tirzepatida apresentou resultados ainda mais expressivos, com uma perda média de 20,9% no mesmo período. Esses resultados despertaram grande interesse tanto da comunidade médica quanto do público em geral.

Por que esses resultados geraram tanta repercussão?

Porque se trata de uma perda de peso relativamente rápida. Vivemos em um mundo acelerado, com excesso de informações e pouco tempo disponível. As pessoas precisam dar conta de múltiplas demandas em apenas 24 horas, o que impacta diretamente a qualidade da alimentação. Nesse cenário, refeições equilibradas acabam sendo substituídas por opções mais práticas e palatáveis, geralmente mais calóricas e menos saudáveis.

Esse estilo de vida contribui para o aumento da obesidade?

Sem dúvida. A ansiedade é um fator central nesse processo. Ela influencia tanto as escolhas alimentares quanto a disposição para a prática de exercícios físicos. Muitas pessoas deixam de manter uma rotina ativa, o que contribui para o crescimento dos índices de obesidade e explica, em parte, a busca por soluções farmacológicas.

Qual é o papel desses medicamentos no tratamento da obesidade?

Eles são ferramentas importantes, mas não devem ser vistos como soluções únicas. O principal benefício está na redução da ingestão alimentar, por meio da inibição do apetite, o que favorece uma perda de peso mais rápida. Do ponto de vista clínico, os resultados são considerados razoáveis e, atualmente, representam o que há de mais eficaz na medicina para o tratamento do excesso de peso.

Por que esses medicamentos se popularizaram tão rapidamente?

Na minha avaliação, essa popularização ocorreu principalmente por causa da efetividade. Para tornar isso mais claro ao público leigo, gosto de usar uma analogia simples: imagine subir 20 lances de escada. Você pode fazer isso a pé, com esforço e tempo, ou optar pelo elevador. Qual caminho é mais rápido e menos cansativo? O elevador.

Para grande parte da população, o medicamento passou a ser visto dessa forma. Se existe a possibilidade de abreviar o caminho até a perda de peso, com menos esforço aparente, a tendência natural é escolher essa opção. A lógica, do ponto de vista do paciente, não é necessariamente equivocada. O problema surge quando essa escolha vem acompanhada da ideia de que não é preciso fazer o que realmente precisa ser feito.

A analogia serve justamente para mostrar que no campo da saúde, os tratamentos não funcionam sozinhos. A medicação pode facilitar o processo, mas não substitui mudanças de comportamento, alimentação adequada e atividade física. Ainda assim, a rapidez e a facilidade nos resultados explicam por que esses medicamentos se tornaram tão populares. As pessoas buscam cada vez mais encurtar o caminho para alcançar seus objetivos em menos tempo.

Quais são os principais riscos associados ao uso dessas medicações?

Os riscos estão relacionados principalmente aos efeitos colaterais conhecidos, como náuseas, constipação intestinal e, em casos específicos, pancreatite — especialmente quando a progressão da dose é feita de forma muito rápida. Por isso, o acompanhamento médico é fundamental ao longo de todo o tratamento.

Existe algum risco que vá além dos efeitos físicos?

Sim. O aspecto psicológico é um dos pontos mais sensíveis. É o paciente entender que ele não vai alcançar o objetivo dele apenas com a medicação.

A priori, o medicamento causando emagrecimento pode favorecer o lado psicológico dele, porém ele deve entender o seguinte: “estou usando a medicação e estou bem”. Mas não é isso! É ele entender que é um tratamento e que só usar medicamento não vai adiantar.

O que mudou no tratamento da obesidade nos últimos anos?

O tratamento evoluiu de forma significativa. Hoje, existem medicamentos mais modernos e com maior efetividade, mas também com custo elevado. As novas drogas, sobretudo as canetas injetáveis, como a semaglutida e a tirzepatida não são acessíveis à maior parte da população, o que acaba limitando seu uso.

Além disso, houve uma mudança importante de conceito. A obesidade deixou de ser vista apenas como um estado e passou a ser reconhecida como uma doença crônica, que exige tratamento contínuo. A comparação com a hipertensão ajuda a entender: ao interromper a medicação, os problemas retornam. Com a obesidade, ocorre o mesmo.

No entanto, trata-se de uma doença metabólico-comportamental, o que torna indispensável o cuidado psicológico. Se o comportamento do paciente em relação à comida e aos hábitos de vida não for trabalhado, dificilmente haverá sucesso pleno apenas com o uso da medicação. Essa mudança de paradigma foi fundamental e, nos últimos anos, a obesidade passou a contar inclusive com uma Classificação Internacional de Doenças (CID). Ainda assim, o debate público permanece muito centrado nos medicamentos, quando a dimensão psicológica também precisa estar no centro do tratamento.

O que o senhor tem a dizer sobre a OMS lançar pela 1ª vez diretrizes sobre o uso de canetas emagrecedoras contra a obesidade?

Nada mais justo do que a OMS publicar uma diretriz falando sobre o uso das canetas injetáveis. Até porque a gente precisa validar a importância médica da terapia com essas canetas. Padronizar um critério de uso baseado em evidências, combater o estigma e reforçar a obesidade como doença é importantíssimo. Além disso, alertar para os riscos e necessidade de monitorização, o uso indiscriminado de forma aleatória com drogas compradas em fontes ilícitas, traz malefício à população.

Um adendo é incentivar os governos a criarem políticas públicas de regulação e acesso equitativo e vigilância pós-comercialização. Sem esquecer do contraponto que é o uso desregulado e indicação clínica.

O que o senhor tem a dizer para as pessoas que tomam remédio para emagrecimento?

O tratamento e o emagrecimento são importantíssimos para a manutenção da saúde e que não deve haver preconceito no uso dessas drogas. Muitos pacientes usam e sentem vergonha em falar, visto que as pessoas acham que emagrecer é só fechar a boca. Obesidade é uma doença e precisa de tratamento. Se temos uma ferramenta benéfica na qual a gente poder usá-la com indicação e acompanhamento, ela deve sim ser utilizada.

Na verdade, o melhor benefício vai ser manter o quadripé: atividade física, sono, alimentação e água. Isso vale mais do que qualquer droga. Meu conselho é que as pessoas façam uso de forma acompanhada e não façam desse uso como a resolução de todos os problemas.


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