Agenda Gilsse Campos
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Coluna

Vivendo sem a voz de Dercy

“É assim que a minha banda toca…”

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14 de maio de 2026
Vivendo sem a voz de Dercy
Crédito: Reprodução

Quase duas décadas sem Dercy, uma artista que trouxe genialidade para o teatro brasileiro e que este ano está sendo homenageada com o monólogo de Grace Gianoukas, “Nascí pra ser Dercy” e com a biografia de Adriana Negreiros, “Dercy, a Diva Debochada”. E eu aproveito para lembrar aqui q entrevista que fiz com ela para o Caderno B do Jornal do Brasil.

 Quando entrei no apartamento de Dercy Gonçalves, na praia do Flamengo, eu nem desconfiava que ela iria virar uma estátua de bronze de 10 toneladas e 4 metros de altura e não sabia que ela iria trabalhar até os 101 anos de idade, e que seria dela o recorde mundial do Guinness como a atriz com a carreira mais longa da história.


EU E ELA

Ela me encontrou parada no meio da sala, hipnotizada com tantos cristais e louças e quadros e móveis antigos e tapetes persas. E ela fez a primeira pergunta: “você é muito nova, não teve medo de vir aqui? Todo mundo tem medo de mim”. Vou deixar aqui alguns trechos da entrevista, exatamente como foram publicados no Caderno B do Jornal do Brasil.

“Não aceito entrevistas sensacionalistas. Se quiser me entrevistar, eu tenho um passado muito decente, são 43 anos de uma profissão muito digna. O que eu consegui, foi lutando, trabalhando, nunca fiz escândalo, nunca tomei o marido de ninguém, nunca fiz nada demais. Imagine, dizem que eu sou cafona. Ora, ser cafona é ser velha e querer imitar a juventude. Na minha vida particular, eu sou uma lady, em tudo por tudo: comportamento, exemplo, decência, tudo. Menina, na minha época, nós as artistas, éramos consideradas prostitutas. Fichadas e examinadas como prostitutas. A gente era classe C. Hoje eles querem me promover para classe A porque eu tenho dinheiro. Antigamente eu era muito insegura, acreditava em Deus, em milhões de coisas. Hoje, eu só conto comigo.


CONFIANÇA TOTAL

E hoje eu sou uma mulher rica. Sou sim, bem rica. Tenho vários imóveis. Eu tenho muita coisa. Um saco de joias, brilhantes maravilhosos, graças a Deus não vou para o Retiro dos Artistas. Hoje, aliás, veio aqui uma velhinha de lá, coitada. Eu dei 100 contos a ela. Nós fomos companheiras de miséria na Praça Tiradentes.

Cadê as joias? Tudo no Banco. Como toda boa pobre, eu fiquei uma rica daquelas. Tenho 180 pulseiras; anéis nem tem conta.  Solitários de brilhantes eu tenho quatro: um de 20 quilates, um de 15, um de 10 e um de nove. Olha, eu tenho um colar que custou 80 milhões há três anos. Aquilo sim, é cafonice: é inteirinho de brilhantes. Tudo que eu quis ter eu tive, até cavalo no Jóquei, só para esnobar. Basta dizer que eu morava num apartamento triplex de 12 quartos. Sozinha. Uma vez dei uma festa lá para mais de 500 pessoas. Foi até a dona da Manchete.”


COMO DUAS AMIGAS

E Dercy me convida para conhecer o seu quarto: são dois cômodos e o maior é inteiramente ocupado por uma cama enorme, com espaldar de dois metros de altura, forrado de lamê prateado, o mesmo da cortina. E os babados têm oito camadas que cobrem inteiramente o piso e são contornados de renda branca. Oito almofadas decorativas completam o cenário. Um arco divide o quarto para o outro, com as paredes cobertas de armários forrados de espelhos, exceto uma parede, forrada de espelhos e com prateleiras de cristal do teto ao chão, “aqui tem mais de mil perfumes, quando vou a Paris, compro mil dólares só de perfumes, toma um.” E entramos juntas no banheiro, “também ideia minha. Pode ser cafona, mas eu gosto.”  Mármores no chão e paredes, espelhos trabalhados em madeira prateada, muitos arabescos nos pontos de luz. As portas são forradas de lamê prateado. 


PAPO DE FAMÍLIA

Ficamos na janela, olhando a vista do Aterro do Flamengo e ela diz: “A minha vida não foi sofrida, não. Eu não quero mais nada. Com dinheiro, eu não sinto falta de nada. Eu gosto muito de dinheiro porque nasci pobre. Mas é engraçado, eu continuo pobre até hoje. Eu sou rica só porque tenho dinheiro. Hoje mesmo, almocei angu com feijão, vendo televisão. E tomei o resto da cerveja choca de ontem. Eu não consigo ser bacana não. Quando eu era da sua idade, aos 20 anos, eu tive tuberculose. De fome. Eu comia no China e morava num quartinho sem janela, na Rua da Relação, n. 5. Quase morri. Eu só tenho até o terceiro primário, em Madalena, que corresponde ao maternal do meu neto Flavinho. O que me salva é que sou muito observadora, aprendi com a vida. Hoje eu não falo em termos empolados, mas tenho a minha linguagem, que eu acho fácil e muito prática.


DECISÃO FINAL

“ Eu vou é embora. Vou morar em Miami, já comprei até um apartamento lá. Não fico mais no Brasil de jeito nenhum. Não quero me aborrecer, nem levar susto, nem ter enfarte. Não há quem não sinta de ser agredida `a toa, enquanto procura dar, criar. E outra coisa, eu tenho dois netos, fico preocupada em deixar uma imagem ruim para eles. Sou burguesa e tímida. A minha defesa é a agressão. Eles já me agrediram de todo o jeito, só pouparam a minha filha, porque ela não participa de nada. E mesmo assim, ela quis uma vez entrar pra sócia no Tijuca Tênis Clube, e não deixaram, porque ela era filha da Dercy Gonçalves. É duro. Eu ganhava dinheiro fazendo Stand Ups cômicos nos teatros da Praça Tiradentes. Eles diziam que eu era pornográfica, mas eu era picaresca. Eu fiquei mal-vista, falam em mim e as pessoas já veem imoralidade, não há respeito e isso me incomoda, eu tenho uma filha muito bacana, uns netos que amanhã pode ser uns políticos alinhados e isso atrapalha. Por isso eu digo: quero ser babá lá fora e não quero ser rainha aqui.


EU E DERCY

Ficamos amigas. Ela confiou em mim e a matéria ocupou uma página inteira no Caderno B. Tivemos muitos outros encontros em festas e eventos e sempre ficávamos juntas e ela me dava um pedaço do fumo de rolo para mascar, que sempre levava na bolsa, “isso é bom para a saúde dos velhos”. De vez em quando, ela me repetia, “eu tenho esperança de que quando meus netos crescerem, o mundo esteja mais evoluído, mais aberto e essa gente toda já tenha morrido.” Dercy, a grande estrela dos teatros da Praça Tiradentes e que deixou claro que se preocupa com a imagem que vai deixar para os netos: “É, eu ando meio acovardada. Não sei se é velhice, ou só o peso dessa vida que eu trouxe sozinha.”

Quando saí da casa de Dercy, sentei no meu carro e chorei muito. Aquele encontro teve um impacto profundo na minha vida e na minha carreira e eu senti uma gratidão sincera por aquela mulher imensa que não mudou meus planos, mas mudou quem eu sou.



A VOZ DE LUIZ CALAINHO

Ir ao Blue Note, na Avenida Atlântica, para assistir o talkshow de Luiz Calainho é um prazer para todos aqueles que acreditam que a experiência presencial é única. O empresário e produtor cultural que desde jovem se dedica a acompanhar os grandes eventos de música, arte e entretenimento, está agora dedicado a um novo Portal que será a mais completa iniciativa de resgate de memória da Bossa-Nova. Luiz Calainho é um showman que ocupa o palco com muito talento e envolve o público e os artistas que se apresentam, como o ícone da bossa-nova Roberto Menescal e o jovem e talentoso Will Santt.


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