*Por José A. Moura Neto
Quando um paciente ouve “você vai precisar de diálise”, o silêncio que se segue costuma ser denso. O olhar baixa, o corpo enrijece, a imaginação corre para o pior. É compreensível. A doença renal crônica avançada é um diagnóstico que impõe medo, incertezas e mudanças profundas na vida. Mas a frase – essa mesma frase – também pode ser lida de outro modo. E talvez seja urgente resgatarmos essa outra perspectiva: “você vai fazer diálise” é uma boa notícia.
A doença renal crônica não é rara. Estima-se que 1 em cada 10 pessoas no mundo viva com algum grau da doença – muitas sem saber. Em seu estágio mais avançado, quando os rins deixam de funcionar, a diálise ou o transplante renal são fundamentais para a manutenção da vida.
Voltemos algumas décadas. Nos anos 1960, quando a diálise ainda engatinhava como tecnologia médica, ela não era apenas escassa – era um privilégio. Em Seattle, um comitê foi criado para decidir quem teria acesso ao tratamento nos Estados Unidos. Era chamado de Comitê Deus. Não avaliavam critérios clínicos apenas, mas julgamentos sociais, morais, subjetivos. Quem “merecia” viver?
A pergunta, que deveria soar absurda, era rotina. Naquele período, a revista Life publicou uma reportagem histórica. “Eles decidem quem vive, quem morre”. O título não precisava de metáforas. Era literal. Expunha aquele sistema e confrontava o mundo com um dilema ético brutal.
Com o tempo, felizmente, a diálise se expandiu, tornou-se mais acessível, e sistemas de saúde – como o brasileiro – passaram a reconhecê-la como um direito. A tecnologia evoluiu, a escala aumentou, e o que antes era exceção passou a ser regra.
Ou pelo menos era isso que imaginávamos. Hoje, no Brasil, vivemos uma contradição desconfortável – um eco distorcido daquele passado distante. Há uma fila silenciosa. Mais de mil pessoas permanecem internadas em hospitais aguardando vagas em clínicas de diálise. Não por indicação clínica, mas por falta de vaga em clínicas de diálise. Muitas vezes, esperam meses.
E há algo ainda mais cruel. Muitos sequer entram na fila. Morrem antes. A desigualdade regional escancara essa realidade: a prevalência de pacientes em diálise no Norte e Nordeste é significativamente menor do que no Sul e Sudeste. Não porque a população é mais saudável, mas porque há menos acesso ao tratamento.
“Não bastasse a queda, o coice” – é um provérbio muito usado nos rincões desse país que muito se aplica à essa situação. O paciente com doença renal crônica avançada já enfrenta um percurso árduo – físico, emocional, social. E, quando mais precisa de acolhimento e empatia, depara-se com um sistema ineficiente. Com a espera. Com o risco. Com a incerteza de um tratamento que garante a vida.
Temos um compromisso político, sanitário e moral de evitar que, de fato, se normalize a iniquidade no acesso ao tratamento. Precisamos enfrentar o subfinanciamento crônico da terapia renal substitutiva, ampliar a oferta de vagas, fortalecer a diálise peritoneal, estimular o transplante renal, investir em prevenção e diagnóstico precoce.
É preciso recolocar as coisas em seus devidos lugares. A doença renal crônica é um diagnóstico que transforma vidas – nesse contexto, afalta de acesso ao tratamento é má notícia.A diálise, não. A diálise é uma das grandes conquistas da medicina do século XX. É a tecnologia que permite que pessoas vivam – por anos, décadas – apesar da falência de um órgão vital. “Você vai fazer diálise” significa: há o que fazer. E você terá acesso a isso. Resgatar essa perspectiva não é apenas um exercício semântico. O verdadeiro absurdo não está na frase. Está no fato de que, em pleno século XXI, ainda existam pessoas para as quais essa “boa” notícia demora a chegar – ou simplesmente não chega. Essa, sim, é a má notícia que não podemos aceitar.
*José A. Moura Neto é presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia
Quer receber esta e outras notícias diretamente no seu Whatsapp? Entre no nosso canal. Clique aqui.



