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Quando a paixão vira vergonha

Em um país que respira bola, os atletas profissionais não são apenas jogadores. São referências. O exemplo pode ser positivo ou negativo.

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12 de março de 2026
Quando a paixão vira vergonha
Confusão no clássico mineiro. Crédito: Reprodução / TV Globo

*Por Marcos Luz

O futebol brasileiro sempre foi mais do que um esporte. É identidade cultural, é conversa de bar, é memória afetiva entre pais e filhos. Em um país que respira bola, os atletas profissionais não são apenas jogadores: são referências, ídolos e exemplos para milhões de crianças que sonham em um dia vestir a camisa de seus clubes.

Por isso, o que aconteceu na final do Campeonato Mineiro não pode ser tratado como um episódio comum de jogo ou como uma simples “confusão de campo”. Não foi. O que se viu ali foi algo muito mais grave: agressões deliberadas, violência coletiva e uma demonstração lamentável de falta de maturidade por parte de profissionais que deveriam honrar o esporte que os transformou em estrelas.

O futebol admite disputa, tensão e até discussões acaloradas. Faz parte da natureza competitiva do jogo. Mas o que ocorreu extrapolou completamente o limite do embate esportivo. Não foi disputa de bola, não foi uma expulsão comum por excesso de vontade. Foi selvageria.

E a mensagem que fica quando esses mesmos atletas entram em campo poucos dias depois como se nada tivesse acontecido é profundamente equivocada.

A explicação jurídica existe: como a competição terminou, as suspensões seriam cumpridas apenas no próximo campeonato estadual. Do ponto de vista técnico do regulamento, pode até haver lógica. Mas o futebol não vive apenas de formalidades jurídicas. Vive de valores, de exemplo e de responsabilidade com a sociedade.

Esses jogadores recebem salários milionários, desfrutam de prestígio, visibilidade e de uma estrutura que a maioria absoluta da população jamais terá. Em troca, espera-se o mínimo: comportamento digno de profissionais maduros e, no mínimo, de pessoas sensatas.

Quando atletas que protagonizam cenas de violência voltam imediatamente aos gramados, o recado que se passa para os torcedores — especialmente os mais jovens — é de permissividade. Como se a brutalidade fosse apenas mais um capítulo do espetáculo.

Não é.

O episódio representa também uma falta de respeito com os clubes que defendem, com os patrocinadores que investem milhões no futebol e, sobretudo, com os torcedores que sustentam essa indústria com sua paixão.

Os responsáveis pelo futebol brasileiro precisam reagir com firmeza. A legislação desportiva precisa encontrar mecanismos para que atos de agressão coletiva não sejam tratados como meras ocorrências disciplinares de jogo. Quando o que se vê é vandalismo em campo, a resposta institucional precisa ser proporcional à gravidade do ocorrido.

Cabe à CBF liderar esse processo. O futebol brasileiro, patrimônio cultural do país, não pode ser refém de atletas milionários que muitas vezes foram excessivamente mimados e pouco responsabilizados por seus atos.

O torcedor brasileiro quer paz. Quer festa nas arquibancadas, rivalidade saudável e espetáculo dentro das quatro linhas. Mas essa paz não pode ser exigida apenas das arquibancadas. Ela precisa começar também dentro de campo.

Porque quando a violência substitui o futebol, quem perde não é apenas um campeonato. Quem perde é o próprio esporte.


*Marcos Luz é presidente do Conexão Fluminense

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