*Por Marcos Luz
A história política brasileira acaba de ganhar um capítulo extraordinário. Lula venceu mais uma eleição presidencial, derrotando Flávio Bolsonaro em uma disputa marcada pela polarização, pela mobilização popular e pela capacidade de reação da esquerda. Aos 80 anos, o presidente conquista um novo mandato e abre espaço para uma reflexão inevitável, esta deve ser sua última eleição, mas seu legado político ainda está longe de ser definido.
A vitória não estava garantida. O primeiro turno havia demonstrado a força da direita e a capacidade de mobilização do bolsonarismo. Diante desse cenário, a esquerda precisou reagir. E reagiu.
Uma onda foi criada. A militância voltou às ruas, as redes sociais se transformaram em instrumentos de mobilização e milhares de apoiadores assumiram o papel de multiplicadores da campanha. Mais do que a estrutura partidária, prevaleceu a capacidade de despertar sentimentos, mobilizar pessoas e transformar engajamento em votos.
A eleição deixa uma lição importante, na política, nenhuma onda está consolidada antes da última urna. Estrutura, recursos e lideranças conhecidas são importantes, mas não substituem a conexão com a sociedade. A esquerda demonstrou que ainda possui capacidade de mobilização nacional e que, mesmo diante de um cenário adverso, pode recuperar terreno.
O Rio de Janeiro merece protagonismo nessa história. A mobilização em Copacabana, na reta final da campanha, produziu uma imagem de grande força política. Em uma região frequentemente associada ao bolsonarismo, o ato demonstrou que o estado não pode ser reduzido a um único campo ideológico.
A capital fluminense também teve papel importante nas urnas. No Rio Lula recebeu 51,54% dos votos válidos, contra 48,46% de seu adversário. Depois de terminar o primeiro turno em desvantagem, o petista conseguiu inverter o resultado.
A virada carioca merece atenção. O Rio é um dos principais centros de comunicação e influência cultural do país. Sua capacidade de produzir movimentos políticos, projetar lideranças e influenciar o debate nacional faz da cidade um território estratégico. A mobilização das ruas e o resultado eleitoral reforçam que o Rio não é apenas cenário da política brasileira, e sim um de seus protagonistas.
Isso não significa ignorar a força da direita no restante do estado, onde a realidade eleitoral é bastante diversa. Significa reconhecer que o eleitorado fluminense continua em disputa e que movimentos de mobilização podem alterar prognósticos e resultados.
A perspectiva de que esta tenha sido a última eleição presidencial de Lula acrescenta uma dimensão histórica à vitória. Poucos políticos brasileiros construíram uma trajetória tão longa e influente. Se este for seu último mandato, Lula terá encerrado um ciclo extraordinário, marcado por vitórias, derrotas e pela capacidade de permanecer relevante na política nacional.
Mas a questão central não é apenas como Lula entrará para a história. É o que acontecerá com a esquerda depois dele.
A mobilização demonstrada nas urnas não pode depender eternamente de uma única liderança. Será necessário formar novos quadros, renovar o discurso e dialogar com uma sociedade que enfrenta desafios concretos, como segurança pública, emprego, renda, saúde e educação.
A vitória também não representa um cheque em branco. Ganhar uma eleição significa assumir responsabilidades com todos os brasileiros, inclusive com aqueles que escolheram outro candidato. O mandato exige diálogo, eficiência e respeito à diversidade política.
A esquerda recuperou terreno, mas a direita continua sendo uma força expressiva. A polarização não desaparece com o resultado eleitoral, e a consolidação de uma nova maioria dependerá da capacidade de transformar mobilização em resultados concretos.
A onda foi criada, cresceu e chegou às urnas. Lula venceu. O Rio demonstrou sua força política e a esquerda provou que continua capaz de surpreender.
Agora começa outra disputa, transformar uma vitória eleitoral em legado.
Se esta foi a última eleição de Lula, seu maior desafio será preparar o futuro sem depender de sua presença. Porque vencer uma eleição é conquistar o poder.
Construir um legado é deixar uma democracia mais forte e uma nova geração preparada para continuar a história.

*Marcos Luz é presidente do Conexão Fluminense
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