*Por Marcos Luz
O Rio de Janeiro chegou a um daqueles momentos em que a omissão também passa a ser uma escolha.
Durante décadas, assistimos à deterioração de áreas fundamentais para as nossas vidas. A violência avançou, a qualidade dos serviços públicos continua sendo um desafio, a infraestrutura não acompanha as necessidades da população, o ambiente de negócios ainda encontra obstáculos e milhões de pessoas convivem diariamente com a falta de oportunidades.
Ao mesmo tempo, temos um estado extraordinário.
O Rio tem petróleo e gás, turismo, indústria, comércio, serviços, agricultura, universidades, centros de pesquisa, portos, belezas naturais e uma das marcas mais conhecidas do mundo. Temos municípios com enorme potencial econômico e regiões inteiras que poderiam estar produzindo muito mais riqueza e empregos.
O que falta, portanto, não é potencial.
Falta transformar potencial em desenvolvimento.
E essa transformação passa, inevitavelmente, pela política.
É por isso que a próxima eleição precisa ser encarada com uma seriedade muito maior do que aquela que normalmente damos ao processo eleitoral.
Não podemos mais escolher candidatos simplesmente porque gostamos deles. Não podemos votar apenas porque alguém nos pediu. Não podemos transformar eleição em torcida organizada, como se política fosse futebol.
Político não é ídolo.
Político é funcionário público eleito para exercer uma responsabilidade que pertence a toda a sociedade.
Antes de escolher um candidato, precisamos conhecer sua história. Seu currículo. Sua profissão. Sua trajetória. Os caminhos que percorreu para chegar até a candidatura. As pessoas e grupos que o acompanharam nessa caminhada. Suas posições ao longo do tempo. Suas realizações. Seus erros. Suas contradições.
Precisamos conhecer, sobretudo, seu caráter.
Porque discurso qualquer um pode fazer. Promessa qualquer um pode apresentar. Campanha qualquer um pode construir.
História, entretanto, não se inventa de uma hora para outra.
E para aqueles que já ocupam cargos públicos, a análise deveria ser ainda mais rigorosa.
O eleitor precisa saber como esse político utiliza o mandato que recebeu. Qual sua frequência. Quantos projetos apresentou. Quantos foram aprovados. Como votou nas matérias mais importantes. Quanto gastou. Como utiliza as verbas públicas. Quem são seus assessores. Quais resultados entregou.
Também é legítimo e necessário conhecer os processos judiciais aos quais eventualmente responde e entender, com responsabilidade, o que cada caso significa — sem condenações antecipadas, mas também sem esconder informações relevantes.
Isso não é perseguição.
É democracia.
A sociedade precisa abandonar a ideia de que fiscalizar político é tarefa apenas da imprensa, do Ministério Público, dos tribunais ou dos adversários. Fiscalizar é também uma obrigação do cidadão.
Hoje temos acesso a uma quantidade enorme de informações. O eleitor pode pesquisar, comparar, verificar números e acompanhar a atividade de quem recebeu seu voto.
O problema é que, muitas vezes, não fazemos isso.
Preferimos a opinião pronta à informação. O vídeo de poucos segundos ao histórico de anos. A promessa ao resultado. A simpatia pessoal à competência.
E depois reclamamos.
O Rio não pode continuar preso a esse ciclo.
Precisamos escolher pessoas capazes de pensar o estado para além do próximo mandato. Pessoas que compreendam que segurança pública não se resolve apenas com discurso; que educação exige planejamento; que saúde exige gestão; que desenvolvimento econômico depende de segurança jurídica, infraestrutura e ambiente favorável aos negócios; que turismo precisa ser tratado como indústria; que os municípios precisam ser protagonistas de uma estratégia de desenvolvimento regional.
Precisamos de uma política que volte a discutir o futuro.
Mas nenhum projeto de futuro será possível se continuarmos escolhendo o presente sem responsabilidade.
O momento exige uma sociedade mais madura, mais participativa e menos tolerante com o improviso.
Não se trata de defender esquerda ou direita, governo ou oposição, partido A ou partido B.
Trata-se de defender o Rio de Janeiro.
O eleitor pode ter sua ideologia, sua preferência e sua paixão política. O que não pode abrir mão é da capacidade de pensar.
Precisamos aprender a separar o amigo do bom administrador, o bom discurso do bom projeto, a popularidade da competência e a propaganda da realidade.
O Rio tem jeito.
Tem recursos, tem gente, tem talento, tem história e tem oportunidades que poucos lugares do mundo possuem.
Mas nenhuma riqueza natural será suficiente se não tivermos capacidade de transformar recursos em prosperidade. Nenhuma beleza natural resolverá nossos problemas se não houver segurança para quem vive e trabalha aqui. Nenhum potencial econômico se transformará em emprego sem bons governos.
A responsabilidade, portanto, não está apenas nas mãos de quem será eleito.
Está também nas mãos de quem vai escolher.
A sociedade chegou ao limite. E quando uma sociedade chega ao limite, não pode mais se dar ao luxo de errar por desinformação, por comodismo ou por paixão.
É hora de pesquisar. De comparar. De perguntar. De cobrar. De fiscalizar.
É hora de olhar para cada candidato e perguntar não apenas “o que ele promete?”, mas principalmente:
“Quem é ele? O que já fez? Como chegou até aqui? E o que podemos esperar dele quando estiver diante do poder?”
O futuro do Rio não será decidido apenas pelos políticos.
Será decidido pelos milhões de eleitores que irão às urnas e também por aqueles que se omitem e não vão.
E talvez essa seja a grande escolha que esteja diante de nós: ou a sociedade que trabalha, produz, empreende, estuda e acredita em um Rio melhor assume sua responsabilidade e ocupa o espaço que lhe pertence, ou outros continuarão decidindo por ela.
O Rio de Janeiro não precisa de salvadores.
Precisa de cidadãos conscientes, políticos preparados e instituições que funcionem.
A próxima eleição é uma oportunidade.
Talvez uma das mais importantes dos últimos tempos.
Porque o Rio ainda tem jeito. Mas não pode mais errar.

*Marcos Luz é presidente do Conexão Fluminense
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