Marketing 7.0 surge como uma síntese e, ao mesmo tempo, uma ruptura. Crédito: Reprodução
Por Juedir Teixeira*
O lançamento de Marketing 7.0: A Guide for Thinking Marketers in the Age of AI, de Philip Kotler, em coautoria com Hermawan Kartajaya e Iwan Setiawan, representa mais do que uma atualização conceitual. Trata-se de uma nova camada de evolução no pensamento do marketing, agora profundamente moldada pela inteligência artificial e pela crescente digitalização das interações humanas.
Para compreender o Marketing 7.0, é necessário contextualizar sua origem dentro da evolução histórica do marketing proposta pelos próprios autores. O Marketing 1.0 era centrado no produto; o 2.0, no consumidor; o 3.0 incorporou valores e propósito; o 4.0 trouxe a integração entre o físico e o digital; o 5.0 introduziu o uso de tecnologias avançadas com foco na humanização; e o 6.0 ampliou a conexão entre experiências e ecossistemas digitais.
O Marketing 7.0 surge como uma síntese e, ao mesmo tempo, uma ruptura: ele estabelece o marketing como um sistema orientado por inteligência — não apenas dados, mas inteligência capaz de aprender, adaptar e tomar decisões em tempo real.
No cerne do Marketing 7.0 está a inteligência artificial, não como ferramenta isolada, mas como infraestrutura estratégica. Os autores defendem que a IA passa a desempenhar um papel transversal em todas as etapas do marketing, desde a compreensão do consumidor até a execução das estratégias.
Essa transformação ocorre porque a capacidade de processamento de dados atingiu um nível que permite não apenas analisar o passado, mas antecipar comportamentos futuros. Assim, o marketing deixa de ser predominantemente reativo e passa a ser preditivo.
No entanto, o ponto central não é a automação pura. O modelo proposto enfatiza a integração entre inteligência humana e inteligência artificial, formando um sistema híbrido. Enquanto a IA oferece escala, velocidade e precisão, os humanos continuam responsáveis por interpretação, contexto, ética e criatividade.
Marketing como sistema adaptativo
Uma das mudanças mais relevantes apresentadas no livro é a transição do marketing como função para o marketing como sistema adaptativo.
Tradicionalmente, o marketing operava por ciclos: pesquisa, planejamento, execução e avaliação. No Marketing 7.0, esse modelo é substituído por um fluxo contínuo de aprendizado.
Isso significa que as decisões passam a ser ajustadas constantemente com base em dados em tempo real. Campanhas não são mais estáticas; elas evoluem conforme o comportamento do consumidor. Estratégias deixam de ser rígidas e tornam-se dinâmicas.
Esse novo modelo exige das organizações uma arquitetura tecnológica e organizacional capaz de suportar esse nível de adaptação contínua.
A nova jornada do consumidor
O livro também revisita o conceito de jornada do consumidor. No contexto do Marketing 7.0, a jornada deixa de ser linear e passa a ser fluida, fragmentada e altamente personalizada.
Os consumidores transitam entre múltiplos canais, dispositivos e pontos de contato de forma não sequencial. Nesse cenário, a experiência precisa ser consistente, contextual e relevante em cada interação.
A personalização ganha um novo patamar. Não se trata mais de segmentação por grupos, mas de individualização em escala, viabilizada pela inteligência artificial. Cada consumidor passa a ter uma jornada única, moldada por seus comportamentos, preferências e contexto.
O papel da experiência e da emoção
Apesar do avanço tecnológico, os autores reforçam que o objetivo final do marketing continua sendo humano: gerar valor percebido.
A tecnologia deve atuar como meio para melhorar a experiência, e não como fim em si mesma. O Marketing 7.0 enfatiza que a conexão emocional continua sendo um elemento essencial.
Nesse sentido, a capacidade de criar experiências relevantes, empáticas e memoráveis torna-se ainda mais importante. A diferença é que agora essas experiências podem ser potencializadas pela inteligência artificial, tornando-se mais precisas e contextualizadas.
Ética, confiança e responsabilidade
Com o aumento do uso de dados e inteligência artificial, o livro dedica atenção especial às questões éticas.
Privacidade, transparência e uso responsável da informação tornam-se elementos centrais na construção da confiança. As empresas passam a ser avaliadas não apenas pela qualidade de seus produtos ou serviços, mas também pela forma como utilizam dados e tecnologia.
A confiança, nesse contexto, deixa de ser um atributo intangível e passa a ser um ativo estratégico.
Implicações para as organizações
O Marketing 7.0 exige mudanças estruturais nas empresas. Não se trata apenas de adotar novas ferramentas, mas de repensar o modelo de gestão.
Entre as principais implicações estão:
As organizações que conseguirem implementar esse modelo tendem a operar com maior agilidade, precisão e capacidade de adaptação.
Conclusão
O Marketing 7.0 representa uma nova etapa na evolução do marketing, caracterizada pela integração entre inteligência humana e artificial, pela transformação do marketing em um sistema adaptativo e pela centralidade da experiência do consumidor.
Mais do que uma mudança de ferramentas, trata-se de uma mudança de paradigma. O marketing deixa de ser apenas uma função organizacional e passa a ser um sistema inteligente de geração de valor.
Nesse novo cenário, a vantagem competitiva não estará apenas em quem tem mais dados ou mais tecnologia, mas em quem consegue transformar essas capacidades em decisões mais inteligentes, experiências mais relevantes e relações mais confiáveis.
Juedir Teixeira, PhD em Administração Estratégica
Autor de A Arte da Liderança: o CEO como Catalisador do Sucesso Empresarial
Juedir Teixeira é PhD, fundador e CEO da JTB Consultoria
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