Americano levanta a taça da Santos Dumont. Crédito: Crédito: Raphael Torres/Reprodução
Por Marcos Vinicius Cabral
Seria uma heresia falar em futebol carioca sem lembrar do Americano. A história da tradicional agremiação do Norte Fluminense a coloca como uma das principais equipes entre as que recebem menor investimento, mas o passado recente foi de um doloroso ostracismo, situação que está prestes a mudar.
Sob a tutela de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) tocada pelos gestores Renato Valentim e Felipe Melo, ele mesmo, o ex-jogador, O Americano deu uma guinada na história e entrou na rota da volta à elite. Dentro de campo o resultado veio com a conquista da Série A2 e o consequente acesso à elite do futebol carioca. O título encerrou mais um ciclo de dificuldades esportivas para o clube de Campos, que, ao longo dos últimos anos, alternou acessos e rebaixamentos e deixou de ocupar o espaço que historicamente conquistou entre as principais equipes do estado.
O treinador Wendel Costa chegou ao clube em meados de janeiro e participou da campanha que recolocou o Americano na elite. Para ele, o acesso é resultado de um trabalho coletivo e representa a força de um clube tradicional. “Foi uma caminhada de muita dedicação, trabalho, união e, acima de tudo, comprometimento de todos que estiveram envolvidos no projeto. Dentro de campo, construímos uma equipe competitiva, determinada e consciente de que cada jogo seria uma batalha em busca do nosso grande objetivo”.
Para Wendel, a conquista tem um significado que vai além do resultado esportivo: “Essa conquista representa muito mais do que um acesso. Representa a força de um clube tradicional, a paixão de sua torcida e o resultado do trabalho de jogadores, comissão técnica, diretoria e todos os profissionais que acreditaram no projeto desde o primeiro dia”.
O treinador também destacou os momentos de dificuldade enfrentados durante a competição e a união do grupo para superá-los: “Foi uma campanha construída com muito suor, momentos difíceis, superação e, principalmente, união. Tivemos a capacidade de permanecer firmes nos momentos de pressão e mostrar dentro de campo a força e a identidade que queríamos para o Americano”.
“Essa conquista representa muito mais do que um acesso. Representa a força de um clube tradicional”
Wendel Costa, treinador do Americano
A volta do Americano à elite também representa a recuperação de uma relação afetiva que vai muito além do futebol. Um jornalista, escritor e ilustrador nascido em Campos acompanhou a conquista com a sensação de quem vê uma parte da própria família retornar ao lugar de onde nunca deveria ter saído. A ligação com o clube começou dentro de casa. Seu avô, Antônio Peixoto, conhecido como Peixoto Gato, foi jogador profissional do Americano na década de 1930, até aproximadamente 1938. Seu pai, Mario, também teve passagem pelas categorias de base.
“O Americano é mais que um clube, é parte da minha família. Meu avô foi jogador, meu pai foi jogador e quase todos os torcedores têm alguma relação afetiva com o clube. Foi muita felicidade ver o clube voltar e em uma partida tão emocionante”.
A memória familiar ajuda a dimensionar o significado do retorno. Para ele, a conquista também representa uma mudança de perspectiva depois de anos de incertezas: “O Americano caiu em 2012, retornamos em 2019, mas não tínhamos esperança de permanecer na Série A. Hoje temos motivos para acreditar que as coisas realmente mudaram”. A festa do título, segundo ele, teve um significado especial justamente porque não se tratava apenas de uma vitória dentro de campo: “Temos a certeza de que agora retornamos para o lugar de onde jamais deveríamos ter saído”.
A volta à primeira divisão do futebol do Rio ocorre 14 anos depois do rebaixamento de 2012, quando o Americano caiu ao lado do Bonsucesso após 33 anos consecutivos na elite do futebol carioca. Além de ter sido vivido pelos torcedores americanos, o período está registrado no livro História dos Campeonatos Cariocas de Futebol (1906-2023), da Mauad Editora Ltda., escrito por Clóvis Martins e Roberto Assaf. A publicação registra o fim daquela longa permanência do Americano na primeira divisão estadual.
O rebaixamento de 2012 não significou o fim das participações do clube na elite. Em 2018, o Americano quase conquistou a Série B1, mas perdeu para o América por 1 a 0, no Estádio Nílton Santos e ficou próximo de voltar à primeira divisão em 2019. Depois disso, a sequência de quedas e tentativas de retorno expôs um processo de enfraquecimento esportivo que se prolongou por mais de uma década.
A situação contrasta com o período em que o Americano era uma das principais forças do futebol do interior. O ponto mais alto dessa trajetória aconteceu em 2002. Naquele ano, o clube conquistou a Taça Guanabara e a Taça Rio e terminou o Campeonato Carioca como vice-campeão, sendo derrotado pelo Fluminense na decisão. O resultado colocou o Americano entre os protagonistas do futebol estadual e consolidou a imagem de uma equipe do interior capaz de disputar títulos com os grandes da capital. Na década seguinte, porém, a realidade mudou.
Em 2017, por exemplo, o Americano chegou às semifinais da Série B1, mas foi eliminado pelo Goytacaz, equipe rival da cidade de Campos dos Goytacazes. No ano seguinte, conseguiu finalmente o acesso ao conquistar a competição. O retorno de 2019, entretanto, não representou a recuperação do patamar alcançado anteriormente. O clube voltou a enfrentar dificuldades esportivas e financeiras, enquanto sua estrutura também passava por transformações.
Uma das partes mais curiosas da campanha que levou o Americano de volta à elite do futebol do Rio está no campo do jogo. A equipe conquistou o título jogando no Ary de Oliveira, estádio do seu maior rival – o Goytacaz. É uma consequência da demolição do Estádio Godofredo Cruz, tradicional casa do Americano. Durante décadas, o estádio foi o alçapão do time de Campos, sendo, inclusive, um palco que apresentava dificuldades para os grandes da capital. Situado em uma região valorizada da cidade, o patrimônio do clube ficou no meio de um imbróglio imobiliário.
Em 2013, o Americano fechou uma negociação envolvendo o terreno. O projeto previa a utilização da área para um empreendimento imobiliário e, em contrapartida, a construção de uma nova estrutura para o clube em Guarus. O antigo Godofredo Cruz foi demolido em 2014. A substituição, entretanto, tornou-se um problema para o clube. O novo estádio não ficou pronto dentro do cronograma originalmente esperado, e o Americano passou a utilizar outros campos para disputar suas partidas. A questão chegou à Justiça.
O clube discutiu judicialmente o cumprimento das obrigações previstas no acordo com a empresa responsável pelo empreendimento e também cobrou valores relacionados ao atraso na entrega da estrutura. O patrimônio esportivo do Americano voltou a ser alvo de outra disputa quando o novo estádio e o Centro de Treinamento Eduardo Viana chegaram a ser incluídos em processo de leilão judicial relacionado a dívidas do clube.
O episódio mostrou uma das principais contradições enfrentadas pelo Americano nos últimos anos: ao mesmo tempo em que buscava reconstruir seu futebol, o clube precisava administrar problemas relacionados ao patrimônio que deveria sustentar essa reconstrução.
A história do Americano também passa pela trajetória de Eduardo Viana, o Caixa D’Água. Campista e torcedor do clube, Viana comandou a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro por 21 anos. Durante sua gestão, o Americano viveu alguns dos momentos mais importantes de sua história.
A proximidade entre Viana e o clube provocou críticas e acusações de favorecimento por parte de adversários e setores do futebol carioca. As acusações faziam parte das disputas políticas que marcaram o período, embora não tenham resultado em condenação de Viana por essas acusações.
A influência de Caixa D’Água, que faleceu em 2006, ajuda a explicar o espaço político ocupado pelo Americano durante parte daquele período. A conquista dos dois turnos do Campeonato Carioca em 2002 e o vice-campeonato estadual são os principais resultados esportivos daquela geração.
A volta à elite acontece no primeiro ano de trabalho da SAF do futebol do Americano. O clube adotou o modelo abrindo espaço para uma nova estrutura administrativa e para a entrada de investidores. O projeto passou a envolver o Boston City, liderado pelo empresário Renato Valentim, com participação do ex-jogador Felipe Melo. A transição para a SAF vinha sendo construída desde 2024 e avançou com a terceirização da gestão do futebol e a posterior estruturação do novo modelo.
O objetivo declarado é profissionalizar a gestão, ampliar investimentos e criar uma estrutura capaz de devolver ao Americano competitividade no futebol estadual. A primeira resposta veio dentro de campo. Em 2026, o Americano conquistou a Taça Santos Dumont, uma das fases da Série A2 do Campeonato Carioca, e avançou até a decisão. O título diante do Resende confirmou o acesso à elite de 2027.
O título e o acesso encerram um período de afastamento da elite, mas não resolvem os problemas acumulados ao longo dos últimos anos. O Americano que estará na Série A em 2027 é diferente daquele que disputava títulos no início dos anos 2000. A SAF representa uma mudança de modelo e pode criar condições para uma nova fase, mas o desempenho esportivo dependerá da capacidade de transformar investimento em estrutura, planejamento e resultados.
Também será necessário resolver questões relacionadas ao patrimônio, consolidar uma casa para o clube e recuperar parte da relação com o torcedor. O retorno à elite, portanto, representa mais do que uma conquista esportiva. É uma oportunidade de reconstrução.
O Americano volta à elite carregando uma história que inclui 33 anos consecutivos na primeira divisão, o vice-campeonato estadual de 2002, títulos de turnos, quedas, acessos, problemas patrimoniais e uma profunda relação afetiva com a cidade de Campos. Agora, com a SAF e uma nova geração à frente do futebol, o clube terá a oportunidade de transformar o título da Série A2 em algo maior.
Como resumiu Wendel Costa: “Depois de 7 anos, o Americano está de volta ao lugar onde merece estar: a elite do futebol carioca. Essa conquista ficará marcada na história do clube. Tenho muito orgulho de ter contribuído para esse capítulo e levo comigo a certeza de que, quando existe trabalho, união, respeito e propósito, grandes coisas podem acontecer”.
Em 2027, o clube de Campos voltará a enfrentar os grandes do futebol carioca. Depois de tantos anos de incertezas, a pergunta deixa de ser apenas quando o Americano voltaria à elite. Agora é outra: será que este é o início da reconstrução de um clube que, por sua história e pela relação com sua torcida, nunca deveria ter deixado de ser protagonista?
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