Por Renata Souza* e Renata Lira**
O dia 3 de novembro significa bem mais do que uma data celebrativa na história de luta das mulheres brasileiras pela conquista do direito ao voto. Trata-se de um marco revelador da necessidade de continuidade dessa luta. O contexto político envolve, afinal, a propagação pela extrema-direita de um inacreditável discurso retrógrado contrário ao voto feminino. Quase um século depois da instituição dessa conquista, tal reclamação, embora pareça inofensiva, exige que permaneçamos atentas, unidas, mobilizadas e organizadas para defender esse nosso direito básico e inalienável.
Houve mais de meio século de luta incessante das mulheres até a instituição do voto feminino em 1930 e sua regulamentação no Código Eleitoral de 1932. Poderíamos recordar aqui tantas mulheres que lutaram para romper o regime de restrição ao espaço doméstico e de exclusão dos processos de tomada de decisão política.
Neste ano de vitória da classe trabalhadora contra a escala de trabalho 6×1, cabe destacar a trajetória de Almerinda Gama. Nordestina, advogada e sindicalista, ela foi uma das pioneiras na luta pelo sufrágio feminino. Em 1933, foi a única mulher negra a votar, na condição de delegada, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte. Ela também se candidatou à Assembleia, mas não foi eleita. A sua atuação contribuiu, porém, para colocar no centro do debate público o histórico e estrutural problema da sub-representação das mulheres na política, uma urgência que atravessa séculos.
Numa sociedade ainda ordenada pela lógica patriarcal, continua evidente a sub-representação das mulheres, embora sejamos a maioria da população brasileira (53%, segundo o IBGE). O avanço tem sido lento, mas consistente. Em 2026, elegemos cerca de 20% mais mulheres para os espaços de representação estadual, federal e no Executivo, em comparação a 2022. Essa representação segue, no entanto, insuficiente diante dos desafios históricos que enfrentamos para garantir uma efetiva participação política feminina, sobretudo neste contexto no qual o nosso direito ao voto volta a ser questionado.
O nosso voto tem, para além do gênero, ancestralidade, identidade, corpo e território. A nossa participação político-eleitoral expressa pautas amadurecidas em décadas de organização coletiva. Integrantes de grupos ultraconservadores, atuantes no Brasil e no mundo, têm questionado, contudo, o nosso direito de votar. Houve quem defendesse, inclusive, a proibição do voto feminino e a sua substituição por um voto “familiar”, com o “homem da casa” encarregado de decidir e representar politicamente toda a família. Sob o discurso da tradição, essa proposta esconde a tentativa explícita de retirar a nossa autonomia e a nossa condição de sujeitas políticas. Quando figuras públicas da extrema-direita afirmam em alto e bom som que mulheres “votam mal”, não podemos ignorar ou subestimar mais uma ofensiva contra direitos conquistados com muita luta e que não aceitaremos perder.
Essa nossa disputa secular permanece atual. Além da sub-representação feminina, enfrentamos a violência política de gênero e racial, cuja máxima expressão é o feminicídio político, assim como inúmeras outras tentativas de restringir a nossa participação na vida pública. Precisamos, portanto, reafirmar que a democracia nunca existirá plenamente sem a nossa participação, sem a nossa voz e sem o respeito às nossas escolhas. O direito ao voto não foi uma concessão, mas sim uma conquista. Não aceitaremos retrocessos, não abriremos mão da nossa autonomia e não permitiremos que decidam por nós. Não negociaremos o nosso direito ao voto.
*Renata Souza é deputada estadual, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres da Alerj, jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e cria da Maré.
** Renata Lira é advogada, mestre em Direito Constitucional, doutoranda em Psicologia na UFF, membro da coordenação política da Mandata Renata Souza
Quer receber esta e outras notícias diretamente no seu Whatsapp? Entre no nosso canal. Clique aqui.



