*Por Mauricio Fidelis
Em 2018 eu fui atravessado por uma notícia que eu não esperava, na verdade, nenhum pai espera acredito eu, meu filho começou a manifestar inúmeros comportamentos atípicos, que nos levou a desconfiar que ele estava no Transtorno do Espectro Autista. Um pouco depois desta desconfiança veio o laudo “AUTISTA NÍVEL TRÊS DE SUPORTE NÃO VERBAL”, como qualquer pai, eu fiquei sem chão, mas entendi muito rápido que meu luto tinha que virar luta, que eu precisava aprender tudo sobre essa deficiência para ajudar no desenvolvimento do meu filho e das dezenas de alunos que passam todos os anos pela minha prática profissional.
O autismo deixou de ser um tema restrito aos consultórios, às escolas ou às famílias. Ele está presente no cotidiano de milhões de brasileiros e, cada vez mais, exige que a sociedade compreenda não apenas o diagnóstico, mas também as necessidades dessas pessoas ao longo da vida. Os dados mais recentes ajudam a dimensionar esse cenário, mas também revelam que ainda precisamos avançar na forma como enxergamos o Transtorno do Espectro Autista justamente para que outros pais não sofram com questões que me atravessaram como por exemplo o julgamento e afastamento de pessoas próximas.
Fiquei muito feliz quando pela primeira vez, no Censo Demográfico, o de 2022, que foi realizado pelo IBGE, investigou-se a existência de diagnóstico de autismo na população brasileira. O resultado apontou aproximadamente 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com TEA, o equivalente a 1,2% da população brasileira. O dado é expressivo, mas precisa ser interpretado com cuidado. O Censo não realizou diagnósticos de autismo: a informação foi obtida a partir da declaração de que algum morador daquele domicílio já havia recebido diagnóstico por um profissional de saúde. O próprio IBGE alerta que o autismo é uma condição complexa e que uma única pergunta não permite identificar suas diferentes características ou níveis de suporte, hoje mesmo, em inúmeras turmas minhas na escola ou na universidade percebo crianças, adolescentes e jovens com caraterísticas muito marcante do TEA.
Ainda assim, os números ajudam a revelar algumas nuances importantes. O diagnóstico aparece com maior frequência entre homens, mas isso não significa que o autismo seja exclusivamente masculino. Entre as crianças de 5 a 9 anos, por exemplo, 2,6% foram identificadas como tendo diagnóstico de autismo, chegando a 3,8% entre os meninos dessa faixa etária. Esses números reforçam a necessidade de ampliar o conhecimento sobre o autismo e também de considerar as diferentes formas pelas quais ele pode se manifestar.
Quando olhamos para a educação, a dimensão desse fenômeno fica ainda mais evidente. O Censo Escolar 2025 registrou 1.298.637 matrículas de estudantes com Transtorno do Espectro Autista, contra 918.877 em 2024, 636.202 em 2023 e 429.521 em 2022. Ou seja, em apenas quatro anos, o número registrado no sistema educacional praticamente triplicou, o que sinaliza um dado importante, essas crianças começaram a sair da invisibilidade, e com isso trazem a necessidade de uma reflexão por parte da nossa sociedade. É importante, entretanto, não interpretar esse crescimento simplesmente como uma explosão de novos casos de autismo. O Censo Escolar registra estudantes identificados como público da educação especial dentro das regras da própria coleta educacional. O aumento das matrículas também pode estar relacionado à ampliação do diagnóstico, à maior identificação dos estudantes, à mudança na forma de registro e à maior presença dessas crianças e adolescentes na escola. Portanto, o número é sobretudo um sinal de que as escolas precisam estar preparadas para receber uma população cada vez mais diversa. O próprio Inep destaca que, para o Censo Escolar, são considerados os impedimentos funcionais e as necessidades educacionais do estudante, e não simplesmente a gravidade clínica do autismo.
Mas existe uma dimensão do autismo que muitas vezes fica escondida quando falamos apenas de comportamento, comunicação ou aprendizagem: o desenvolvimento motor. Pessoas autistas podem apresentar dificuldades relacionadas ao equilíbrio, coordenação, planejamento dos movimentos, controle postural, marcha, habilidades motoras finas e grossas, além de dificuldades para correr, saltar, lançar, receber ou manipular objetos. Essas características não estão presentes da mesma maneira em todas as pessoas com TEA, pois estamos falando justamente de um espectro bastante heterogêneo. Estudos científicos mostram, porém, que alterações motoras podem aparecer precocemente e acompanhar o desenvolvimento, e isso só começou a me chamar a atenção quando meu filho começou a demonstrar inúmeros comprometimentos motores.
Entre essas características, merece atenção o tônus muscular. Algumas pessoas autistas apresentam hipotonia, ou seja, uma redução do tônus muscular, que pode contribuir para dificuldades de sustentação corporal, postura, equilíbrio, resistência e execução de determinados movimentos. Uma revisão sistemática publicada em 2025, reunindo 24 estudos, encontrou associação consistente entre hipotonia, dificuldades motoras e autismo, embora os pesquisadores ressaltem que ainda são necessários estudos para estabelecer protocolos mais precisos de avaliação. E durante um tempo fiquei me questionando, o que eu, um profissional de Educação Física poderia fazer para impactar a vida do meu filho e dos meus alunos? é nesse ponto que penso que não só eu, mas todos os profissionais de Educação Física possuem um papel fundamental. Nossa atuação não deve ser compreendida apenas como uma oportunidade de praticar esporte ou “gastar energia”. Uma intervenção bem planejada pode contribuir para o desenvolvimento da força, resistência, equilíbrio, coordenação, mobilidade, habilidades motoras e autonomia, além de favorecer a participação social e a construção de uma relação mais positiva com o próprio corpo.
Para isso, não basta colocar a pessoa autista em uma atividade física e esperar que ela simplesmente se adapte. É necessário conhecer suas características, respeitar seu ritmo, compreender suas necessidades sensoriais e estabelecer objetivos individualizados. Musculação, natação, treinamento funcional, esportes coletivos e outras práticas podem ser utilizadas, desde que sejam planejadas de acordo com as possibilidades e necessidades de cada indivíduo.
Os números do IBGE e do Inep nos apresentam uma realidade incontestável: o autismo faz parte da sociedade brasileira e está cada vez mais presente também nas escolas, nos espaços esportivos e nas políticas públicas. O próximo passo, portanto, não deve ser apenas contar quantas pessoas estão no espectro. Precisamos perguntar o que estamos fazendo para garantir que essas pessoas tenham oportunidades reais de desenvolvimento, participação, saúde e qualidade de vida.
Incluir não é apenas abrir a porta. É garantir que, depois de entrar, cada pessoa encontre condições para participar, desenvolver-se e ocupar seu espaço na sociedade de forma plena de acordo com as suas eficiências, quando nos prendemos naquilo que nós, os autistas não podemos ou temos dificuldades de fazer, perdemos a oportunidade de olharmos e desenvolvermos potencialidades.
*Mauricio Fidelis, mestrando em Ciências da Atividade Física/UNIVERSO, é professor da Universidade Castelo Branco/RJ; professor das redes Estaduais e Municipais/RJ, professor da Extensão do CEPUER/UERJ e gerente do Programa Nacional Paradespotivo-ANDE
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