Opinião

Mais Livros, Menos Violência: o Rio não pode continuar refém

*Por Pedro do Livro

Quem mora na Zona Norte está acostumado a acordar com barulho de helicóptero e conflito. Na semana passada, foi difícil assistir às mesmas cenas de sempre no Chapadão: em plena luz do dia, barricadas pegam fogo, ônibus são atravessados e operações alteram a rotina de quem precisa trabalhar, estudar ou simplesmente voltar para casa. Isso virou parte do cotidiano em Anchieta, Pavuna e em tantos outros bairros do subúrbio do Rio.

Nossa cidade é refém da violência e, de alguma forma, normalizamos isso. Uma mãe acorda e, antes de arrumar a mochila do filho para ir à escola, liga a TV preocupada para ter certeza que não vai estar no meio de uma guerra. Isso não pode ser normal.

Por isso, não podemos esquecer de fazer uma pergunta-chave: nossos bairros são violentos ou foram violentados durante décadas?

O Poder Público precisa entender que não há ausência sem consequência. Se o Estado não ocupar as comunidades com iniciativas como a Cozinha Comunitária da Biblioteca A Casa Amarela e articulação local, outras forças tomam conta do lugar.

Medellín entendeu isso. A cidade, que antes era de Pablo Escobar (1949-1993), consolidou uma forma inteligente de lidar com a política de segurança para fazer um verdadeiro resgate aos bairros. Bibliotecas e projetos sociais foram um braço-chave em áreas marcadas pela violência.

Isso não significa substituir polícia por livro.

Precisamos de uma mão firme na Segurança Pública e uma cabeça inteligente na gestão. Operação policial sem investigação financeira não desmonta a operação que sequestrou um bairro. Cortar uma erva-daninha é importante, mas se outra cresce no lugar em poucos minutos, não é suficiente.

Nenhum morador gosta de operação. Mas todo morador gosta que seja feito algo para ele se sentir mais seguro um dia e ser resgatado dessa situação de refém.

Como fundador de um projeto social, sinto de perto que o Rio precisa deixar de escolher entre repressão e prevenção. Precisa investigar melhor, sufocar financeiramente o crime e ter braços para permanecer nos bairros depois que a operação terminar.

Mais livros significam mais oportunidades e auxílio para nossas famílias. Menos violência exige inteligência e coragem para mudar um modelo que há décadas não entrega segurança.


Pedro do Livro lidera a Imprensa da Cidade do Rio de Janeiro e é o criador da Biblioteca A Casa Amarela.

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