Vini JR ao final do jogo contra a Noruega. Odd Andersen / AFP
Por Juedir Teixeira*
Quando uma grande empresa perde competitividade por muitos anos consecutivos, dificilmente a explicação está apenas na equipe operacional. Normalmente, os problemas começam muito antes: na estratégia, na liderança, na governança e na capacidade de adaptação às mudanças do ambiente. No futebol ocorre exatamente o mesmo. Ao final de cada Copa do Mundo discutimos jogadores, escalações e substituições, mas raramente analisamos a forma como o futebol brasileiro é administrado. Ao longo de quase cinquenta anos como professor, consultor, conselheiro e empresário, aprendi que organizações vencedoras dependem de método. O nosso Método de Gestão de Negócios parte de uma sequência simples: diagnosticar, compreender o ambiente externo, analisar o ambiente interno e somente então definir prioridades e ações estratégicas. É esse olhar que proponho aplicar ao futebol brasileiro.
O primeiro passo é reconhecer a realidade. Desde o pentacampeonato, em 2002, o Brasil deixou de conquistar a Copa do Mundo. Se o próximo ciclo não terminar com o título, serão pelo menos vinte e oito anos de espera. Para um país que construiu sua identidade esportiva em torno do futebol, trata-se de um sinal claro de perda de competitividade.
Outro fato chama atenção: o Brasil continua formando excelentes jogadores, mas deixou de ser referência na formação de treinadores. Enquanto a Argentina teve diversos técnicos dirigindo seleções em Copas recentes, o Brasil sequer contou com um treinador brasileiro à frente da própria seleção. Isso revela um desequilíbrio entre formação técnica e formação de líderes. Soma-se a isso um histórico de instabilidade institucional na CBF, marcado por disputas, trocas de comando e questionamentos sobre governança. Em qualquer organização, ambientes assim dificultam planejamento de longo prazo e execução consistente.
O futebol mundial mudou. Hoje, seleções competitivas utilizam ciência de dados, inteligência artificial, análise de desempenho, psicologia, biomecânica e medicina esportiva como parte do processo decisório. Países que antes figuravam como coadjuvantes passaram a competir em igualdade de condições porque investiram em conhecimento. O Brasil continua possuindo oportunidades extraordinárias: tradição, enorme mercado consumidor, capacidade de revelar talentos e reconhecimento internacional. Entretanto, enfrenta ameaças importantes, como a profissionalização crescente dos concorrentes, a exportação precoce de atletas e a concentração financeira das grandes ligas. Para aproveitar as oportunidades, será necessário investir menos em improvisação e mais em conhecimento, inovação e cooperação entre clubes, federações e seleção.
Os pontos fortes do futebol brasileiro permanecem evidentes: criatividade, talento individual, paixão popular, diversidade regional e uma base enorme de praticantes. Porém, também existem fragilidades estruturais: ausência de um planejamento nacional integrado, pouca continuidade administrativa, formação insuficiente de treinadores, uso limitado de indicadores e baixa integração entre categorias de base e seleção principal. Nas empresas, forças geram vantagem competitiva apenas quando são sustentadas por processos eficientes. Da mesma forma, fraquezas ignoradas acabam comprometendo qualquer estratégia.
Depois do diagnóstico, é hora de agir. A primeira medida deveria ser a criação da Academia Brasileira de Técnicos de Futebol, dedicada à formação permanente de treinadores, analistas de desempenho e gestores esportivos. Essa instituição poderia reunir universidades, ex-atletas, especialistas em liderança, ciência do esporte e inteligência artificial. A segunda ação seria elaborar um Plano Estratégico Nacional para o Futebol, com horizonte de vinte anos e metas que sobrevivessem às mudanças de dirigentes. Também considero fundamental fortalecer a governança da CBF, ampliar a transparência, definir indicadores nacionais de desempenho, incentivar pesquisa aplicada, integrar clubes e categorias de base e criar programas permanentes de desenvolvimento de dirigentes. O futebol brasileiro precisa administrar sua cadeia de valor com a mesma disciplina que as organizações de alto desempenho administram seus negócios.
O futebol e o mundo empresarial compartilham princípios universais. Nenhuma organização permanece líder apenas pela história. É preciso renovar competências, desenvolver pessoas, medir resultados e corrigir desvios continuamente. Empresas que ignoram mudanças de mercado perdem espaço. Seleções que deixam de evoluir também. O talento continua sendo essencial, mas ele produz resultados sustentáveis somente quando encontra uma estratégia clara e uma liderança competente.
A maior lição desta Copa do Mundo talvez não esteja dentro das quatro linhas. Ela está na gestão. O Brasil continua sendo um celeiro de talentos, mas talento sem método dificilmente sustenta liderança. Se desejamos voltar ao topo do futebol mundial, será necessário investir em planejamento, governança, formação de líderes, inovação e execução disciplinada. O nosso Método de gestão ensina que resultados são consequência das decisões tomadas anteriormente. O futebol brasileiro possui todos os recursos para voltar a ser protagonista, desde que tenha coragem de reconhecer seus desafios, aproveitar suas oportunidades e executar um projeto consistente de longo prazo. Essa reflexão vale para o esporte e para qualquer empresa que deseje permanecer competitiva em um mundo cada vez mais exigente.
Juedir Teixeira é PhD, fundador e CEO da JTB Consultoria
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