Opinião

Academia Brasileira de Letras do Cárcere

*Por Siro Darlan

A Academia Brasileira de Letras do Cárcere foi criada com o intuito de enaltecer as obras de escritores e escritoras que contribuem para nossa literatura mesmo estando presos, e tem como principal objetivo mostrar ainda mais versões e pontos de vista por trás da vida de importantes pessoas que merecem ser lembradas por ter resistido aos sofrimentos do isolamento social e produzido suas obras em condições adversas como forma de buscar através do conhecimento a libertação da vida do crime e ter seus livros lidos e apreciados por quem gosta de literatura.

A ABLC tem por finalidade estimular a escrita e leitura de livros escritos por encarcerados e egressos, visando sua reinserção social e a valorização do ser humano em cumprimento de penas privativas de liberdade.

A Regra 64 de Mandela – Regras Mínima das Nações Unidas para Tratamento dos presos –  determina que: “Toda unidade prisional deve ter uma biblioteca para uso de todas as categorias de presos, adequadamente provida de livros de lazer e de instrução, e os presos devem ser incentivados a fazer uso dela”. Do mesmo modo o artigo 21 da Lei de Execução Penal nº 7210/84 também prescreve que: “Em atendimento às condições locais, dotar-se-á cada estabelecimento de uma biblioteca, para uso de todas as categorias de reclusos, provida de livros instrutivos, recreativos e didáticos”.

No entanto, muitas unidades prisionais não possuem bibliotecas, e, entre a Polícia Penal, prevalece a ideia de que apenas livros religiosos podem ser aceitos. Consequentemente, os detidos são privados do acesso a uma verdadeira literatura capaz de promover o conhecimento e a libertação intelectual. Em muitos estados da Federação não há bibliotecas nos presídios e no Brasil, segundo informa o Ministério da Justiça, das 1458 unidades prisionais. 615 não contam com bibliotecas (42%).

A Academia Brasileira de Letras do Cárcere e a ANACRIM – Associação Nacional da Advocacia Criminal pretendem estimular a leitura entre os presos firmando convênios com o sistema penitenciário para a promoção de instalações de bibliotecas em todas as unidades, buscando parcerias com as livrarias, os sebos, as bibliotecas públicas e todos que desejarem contribuir para a ressocialização dos presos através da leitura. Aqueles que desejarem participar dessa cruzada, podem entrar em contato com a redação da Tribuna de Imprensa Livre( (21) 98846-5176); ou  ANACRIM (+55 21 972333199) e doar seus livros para a formação das bibliotecas prisionais.

Mesmo com as barreiras impostas por uma parcela dos agentes penitenciários, há presos e presas que conseguem acesso à literatura, o que os ajuda não só a passar o tempo e a abater parte de suas penas por meio de programas de remição por leitura; em alguns casos, os livros alteram radicalmente suas perspectivas de vida.

Foi o que aconteceu a Samuel Lourenço Filho, 37 anos, condenado por homicídio no Rio de Janeiro em 2007. Antes da prisão, Samuel não era um leitor contumaz; foi no cárcere que, para fugir do ócio, passou a ler diariamente. Como tantos presos, começou pela Bíblia, convertendo-se ao protestantismo. Poderia ter ficado nisso, mas, em 2008, Samuel trabalhou como bibliotecário da prisão – ele não tinha acesso à sala dos livros, mas era o responsável por passar a lista das obras entre os presos, que escolhiam seus títulos preferidos. O sucesso de público, lembra o ex-bibliotecário, era o autor de autoajuda Augusto Cury.

Um dia, um dos títulos chamou sua atenção: Crime e castigo, de Dostoiévski. Iniciou a leitura para não parar mais. “O que me impressionou foi o retrato da miséria humana. Tudo é muito verdadeiro, e ler me ajudou a pensar o meu contexto pobre e hostil na prisão. Eu sentia o frio siberiano, o abafamento dos locais superlotados, a escuridão, o gosto das sopas aguadas? Era tudo como no cárcere. Ele não traz um tom de esperança, mas fala da capacidade de suportar tudo aquilo. Eu me enxergava ali”, diz.

A abertura oficial da Academia está marcada para o dia 18 de abril de 2024, às 17h, na Avenida Rio Branco n⁰ 277 (4⁰ andar), próximo ao Metrô Cinelândia, no Centro. Durante o evento, haverá a nomeação da mesa diretora e a divulgação dos ocupantes de 20 cadeiras, que serão ocupadas simbolicamente em homenagem a autores que contribuíram significativamente para nossa literatura, tanto falecidos, como Graciliano Ramos, Nelson Mandela, Martin Luther King, Esperança Garcia, Lélia Gonzales quanto vivos e continuam contribuindo para nossa sociedade, como José Pepe Mujica, Ângela Davis, entre outros.

A premissa inicial da Academia é ser uma entidade de caráter cultural e literário, com ênfase em despertar o interesse na apreciação de obras feitas por presos, que muitas vezes são esquecidas ou têm menor repercussão.

Além disso, parte dessa premissa é dar posse a novos escritores que estão no cárcere ou recém-saíram da prisão, trazendo o conhecimento deles como uma forma de ressocialização e levando para o leitor uma experiência da qual, na maioria das vezes, nunca viveram. Isso elevará o compromisso de apoiar e promover a diversidade e inclusão na literatura com os meios democráticos e de teor civilizatório, levando em conta que todos devem ter seus pontos de vista ouvidos e apreciados.

Recorde-se que segundo as Regras Mínimas das Nações Unidas que instituíram as Regras de Mandela, você cidadão também é um fiscal do fiel cumprimento da pena aplicada, pois segundo a Regra 83.

1. Deve haver um sistema duplo de inspeções regulares nas unidades prisionais e nos serviços penais: (a) Inspeções internas ou administrativas conduzidas pela administração prisional central; (b) Inspeções externas conduzidas por órgão independente da administração prisional, que pode incluir órgãos internacionais ou regionais competentes.

2. Em ambos os casos, o objetivo das inspeções deve ser o de assegurar que as unidades prisionais sejam gerenciadas de acordo com as leis, regulamentos, políticas e procedimentos existentes, a fim de alcançar os objetivos dos serviços penais e prisionais, e a proteção dos direitos dos presos.


Quer receber esta e outras notícias diretamente no seu Whatsapp? Entre no nosso canal. Clique aqui.

Siro Darlan é jurista, advogado, professor e jornalista. Ex-juiz da Vara de Infância e Juventude

Posts Recentes

Barra do Piraí debate educação antirracista

Educadores da rede de ensino de Barra do Piraí no Sul Fluminense, participaram, na terça-feira…

16 horas atrás

Sine Teresópolis oferece 188 vagas de emprego

O Sine Teresópolis, na Região Serrana, está oferecendo 188 vagas de emprego nas áreas de…

16 horas atrás

Volta Internacional da Laguna terá largada em Cabo Frio

Cabo Frio, na Região dos Lagos, será o ponto de largada e chegada da 6ª…

16 horas atrás

Japeri oferece 1,4 mil castrações gratuitas

A Prefeitura de Japeri, na Baixada Fluminense, iniciou, nesta quarta-feira (26), uma nova etapa do…

17 horas atrás

Quem abandonou o estado do Rio?

*Por Pedro do Livro O Rio carrega uma marca vergonhosa, diversos ex-governadores foram presos. Se…

19 horas atrás

Alerj discute medida para dar mais segurança ao transporte escolar

Tramita na Alerj o projeto de lei número 8177/2026, assinado pelo deputado Dionísio Lins (PP),…

20 horas atrás